GRANDE ENTREVISTA
Humberto
da Costa Biu: um peculiar "casamento" entre as prosaicas questões
financeiras e a paixão pela música
Nas
décadas de oitenta e noventa do século passado, um conjunto
restrito de grandes empresas nacionais, algumas delas públicas,
passou por grandes exigências de financiamento que tiveram de
procurar, sobretudo no mercado externo, dada a escassez dos recursos
internos destinados preferencialmente às pequenas e médias
empresas, menos dotadas, em geral, para se financiarem no exterior.
Uma dessas grandes empresas foi a EDP que, além de cumprir o seu
primeiro objetivo - a satisfação das suas necessidades
financeiras - foi também um importante veículo de captação de
divisas para o País. A Direção Financeira da altura foi sempre
liderada pelo Dr. Humberto Biu, um profissional que construiu toda a
sua carreira no setor elétrico e que vivenciou todas as grandes
fases da sua transformação. Ao longo desse percurso e nessa
qualidade, granjeou a admiração e a amizade dos muitos colegas e
colaboradores que com ele se relacionaram. Quem o conhece destaca-lhe
a competência, o conhecimento e o rigor que sempre colocou no
desempenho das suas funções, mas também o trato afável, a
capacidade de diálogo, a proximidade com os colaboradores. A paixão
pela música que sempre alimentou, em simultâneo com as atividades
profissionais, é uma singularidade que lhe admiramos.
Quisemos
conhecer melhor o Dr. Humberto Biu, um grande associado e amigo da
nossa associação. Daí, esta entrevista.
Dificilmente encontraremos
alguém, que tenha trabalhado no setor elétrico nas últimas
décadas, que não saiba quem é o Dr. Humberto Biu. Como explica
isso?
HB:
Se calhar porque fiz quase todo o meu percurso profissional no
sector, estive diretamente envolvido em todas as grandes fases da sua
transformação e conheci muita gente, colaboradores e não
colaboradores, com quem sempre tive fortes relações profissionais e
pessoais.
Bem,
a verdade é que o seu nome é tido também como uma referência
entre colegas da sua geração que tiveram, e alguns ainda têm,
responsabilidades financeiras em grandes empresas nacionais...
HB:
No exercício das minhas funções, tive que trabalhar com
praticamente todos os grandes bancos nacionais e estrangeiros, com
quem tive que travar, muitas vezes, negociações duras, e com
diretores financeiros de outras grandes empresas nacionais com quem
partilhava preocupações comuns. Nestas condições, é natural que
se tenham criado relações de respeito e consideração mútuas e
até de grande amizade que ainda hoje perduram. Além disso, tive a
sorte de contar sempre com colaboradores de excelência. A sua
competência, lealdade e dedicação foram determinantes para o
cumprimento das metas que nos propunhamos. Também com eles
estabeleci cumplicidades e amizades que jamais esquecerei.
Se me permite, diria que é uma leitura modesta e redutora, porque
tenho o privilégio de o conhecer há mais de 40 anos e fui
testemunha do muito que fez enquanto responsável financeiro e da sua
peculiar paixão pela música que sempre o acompanhou e ainda mantém.
Mas disso falaremos mais à frente. Por agora, diga-me, quando entrou
para o sector elétrico?
HB:
Fui admitido na então Companhia Nacional de Eletricidade em 1954
como aspirante administrativo, tinha então 19 anos de idade. Mas não
julgue que só comecei a trabalhar nessa altura. Antes, com 10 anos
de idade e enquanto aguardava pelos 11 para me matricular na escola
secundária de Setúbal, já eu ajudada, como uma espécie de
secretário, um "poceiro" - pessoa à procura de água no subsolo
- e numa oficina de bicicletas em Palmela. Hoje seria exploração
infantil, mas naquela altura era prática comum e, no meu caso,
evitou que ficasse ocioso durante um ano. Mais tarde, de 1952 a 1954,
ainda trabalhei como escriturário na Companhia Portuguesa de
Higiene.
Então as responsabilidades financeiras e a licenciatura só vieram
muito mais tarde!
HB:
Sabe, eram tempos difíceis, quase impensáveis hoje em dia. Nasci
numa família modesta e, como qualquer família nessas condições,
só com grandes sacrifícios e algumas ajudas de familiares e amigos
me foi possível ir além da 4ª classe, hoje quarto ano. A 1ª etapa
foi conseguir o então designado Curso Complementar de Comércio,
obtido na Escola Comercial Ferreira Borges, em Lisboa, e isso
constituiu a base indispensável para começar a trabalhar, como já
referi, na Companhia Portuguesa de Higiene. O passo seguinte foi
frequentar, enquanto trabalhava e em regime noturno, o Instituto
Comercial de Lisboa que concluí com sucesso e me permitiu ƒa
matrícula no Instituto Superior de Ciências Económicas e
Financeiras, hoje ISEG, onde terminei a minha licenciatura em
finanças em 1961, sempre na condição de trabalhador estudante, ou
voluntário como na altura eramos designados.
Então a licenciatura foi "arrancada" já como trabalhador da
Companhia Nacional de Eletricidade. Digo "arrancada" porque o
termo contém em si a noção de esforço, grande sacrifício que
certamente lhe terão sido exigidos ao longo desses 7 anos. Teve a
compreensão da empresa e dos seus superiores hierárquicos?
HB:
Compensei sempre a empresa com as horas que gastava nas aulas, mas
tenho que reconhecer que tive a maior compreensão e apoio, quer dos
colegas, quer das chefias, a quem eu procurava corresponder com
aplicação aos meus deveres para com a empresa. Já agora deixe-me
dizer-lhe que, pelo meio não perdi a oportunidade de me preparar nos
aspetos culturais; não havia concerto sinfónico, peça de teatro,
exposição de pintura, filme ou conferência cultural a que
faltasse. Hoje posso orgulhar-me dos conhecimentos e do gosto que
tenho pelas "coisas da cultura", especialmente no campo da
música.
E como dá expressão a esse especial gosto pela música?
HB:
Devo dizer-lhe que faço parte, desde os 10 anos de idade, da
Sociedade Filarmónica Palmelense "Loureiros", em cuja banda
continuo ainda hoje a tocar, tal como os meus filhos e três netos, e
da qual fui diretor durante 30 anos, até 2004. Com esta ligação
quis dar continuidade a uma tradição familiar e contribuir para a
dinamização cultural de Palmela, cidade a que me ligam fortes
relações afetivas apesar de radicado em Lisboa desde 1949. Sou
casado há mais de 50 anos com a Maria Manuela Paula, também ela
envolvida nos "Loureiros" e tenho uma filha que seguiu a carreira
de cantora lírica e professora de canto.
Dr. Biu, voltemos agora ao sector elétrico. E permita-me que o faça
com uma nota pessoal. Quando eu próprio entrei na Companhia
Portuguesa de Eletricidade, depois de extinto o antigo Grémio dos
Industriais de Eletricidade, em 1975, foi o Senhor que me recebeu e
me atribuiu as primeiras tarefas. Guardo desse curto período de
tempo uma grata memória. Lembra-se dessa passagem e das funções
que então exercia?
HB:
Como sabe, a Companhia Portuguesa de Eletricidade (CPE) foi
constituída em 1969 e resultou da fusão da Companhia Nacional de
Eletricidade com as empresas de produção. Comecei por assumir na
CPE as mesmas responsabilidades que tinha na CNE, ascendendo em 1972
à chefia do Serviço de Contabilidade e Orçamento de Tesouraria,
funções que assegurei até Junho de1976, data de constituição da
EDP. Lembro-me muito bem da sua chegada à CPE e da excelente relação
que partilhámos com o Dr. Mário da Anunciação Gomes, o então
diretor da Direção Central para os Assuntos Financeiros (DCAF),
direção em que estávamos integrados.
Até que ocorreu a nacionalização do sector e a subsequente
constituição da EDP em 1976. É claro que se viveu então um longo
e complexo processo de harmonização e uniformização das
políticas, regulamentos, práticas e procedimentos, vigentes nas
várias empresas nacionalizadas. Como viveu essa fase nas áreas
financeiras?
HB:
À complexidade da mudança juntava-se a urgência de pôr uma
estrutura organizativa a funcionar. E, como em todas as grandes
mudanças, houve necessidade de tomar decisões corajosas depois de
devidamente estudadas e explicadas. As alterações mais
significativas talvez se tenham verificado na gestão de tesouraria,
na medida em que se adotou uma gestão completamente centralizada com
óbvios e imediatos efeitos na otimização dos recursos. Face às
responsabilidades que então tinha do "Planeamento Financeiro"
estive particularmente envolvido nesse processo e acabei por ser
nomeado diretor, primeiro do Órgão Central de Finanças e mais
tarde da Direção Central Financeira onde permaneci até janeiro de
1997.
Significa, portanto, que nessa condição viveu intensamente os
problemas de financiamento da economia portuguesa, e da EDP em
particular, que se verificaram em toda década de 80 do século
passado. Pode, em poucas palavras, caracterizar essas dificuldades?
HB:
Para se entender bem a dimensão dos problemas nesse período, teria
que se recordar todo o enquadramento macroeconómico. Noto apenas que
chegámos a ter a intervenção do FMI, como aconteceu recentemente,
com todas as consequências que isso acarretou para o financiamento
da economia portuguesa e, por arrastamento, para as empresas. Ora
esta situação coincidiu com uma fase de volumosos investimentos na
EDP a quem, enquanto empresa única e pública, eram exigidos
objetivos de eletrificação do território nacional e de construção
dos centros produtores indispensáveis à satisfação dos consumos.
Era necessário muito financiamento. Para além dos financiamentos
específicos do Banco Mundial e do Banco Europeu de Investimentos,
foi necessário mobilizar enormes recursos, sobretudo junto de bancos
estrangeiros. E porquê no mercado externo? Porque, por orientação
política, os recursos internos estavam especialmente reservados às
pequenas e médias empresas que não tinham capacidade de se
financiar no exterior; logo, a EDP, face à credibilidade de que
gozava nos meios financeiros, funcionou nessa época como veículo de
captação ƒ de divisas e, nessa medida, aliviava também a pressão
existente no País. Foi para mim uma época de enormes desafios,
absorvente, mas muito gratificante. E daí resultou também a vasta
rede de contactos, de cumplicidades e de amizades de que falávamos
no início desta conversa.
Deixou a Direção Financeira em 1997, mas só se reformou em 2000.
Como preencheu esses três últimos anos ainda no ativo?
HB:
Fui eleito para administrador da Holding do Grupo EDP em 1997 cujo
mandato cumpri até Maio de 2000; e, por inerência, fui também
administrador de várias empresas do Grupo. Enquanto administrador da
Holding mantive sempre o pelouro financeiro.
Mesmo depois de 2000 não acredito que se tenha remetido
exclusivamente à condição de reformado!
HB:
Não, nada disso. Tive a sorte de participar ainda em dois projetos
desafiantes mas também muito gratificantes. Participei na Comissão
Instaladora da Fundação EDP de 2002 a 2004 e fui nomeado seu
administrador em janeiro de 2015; No Centro Cultural de Belém fui
membro do seu Conselho de Mecenas, enquanto representante da EDP, de
2002 a 2003, e seu membro da Comissão Diretiva, de 2004 a 2008, por
nomeação do governo.
Entretanto,
cheguei a esboçar uma história do financiamento da EDP dos últimos
25 anos da minha vida ativa, projeto que abandonei por concluir que
essa história estava já razoavelmente contada nos relatórios
anuais da empresa, que ajudei aliás a redigir, mas sobretudo que me
envolvi na escrita do livro "Sociedade Filarmónica Palmelense
"Loureiros" - 150 anos de História", cuja edição foi
amavelmente patrocinada pela Câmara de Palmela.
E agora Dr. Biu, como ocupa o seu tempo, para além, claro está, da
música na sua Sociedade Filarmónica?
HB:
Tenho três filhos e seis netos e, como já deixei dito, quase todos
me acompanham na minha paixão pela música. Além disso, cultivamos
muito o espírito gregário e familiar com encontros periódicos na
minha quinta em Palmela. E é aí que me ocupo com trabalhos no campo
da música (arranjos e instrumentações), trabalhos de jardinagem,
leituras e cinema. Não descuro a minha rede de amigos com quem me
encontro regularmente para, a pretexto de um almoço, continuarmos a
acompanhar os desenvolvimentos do sector elétrico e da sociedade em
geral.
Para terminar, vou pedir-lhe duas breves reflexões: como vê o mundo
atual e a posição do nosso País nesse contexto? E que reflexão
crítica lhe merece a arep face aos seus objetivos estatutários?
HB:
Teríamos aqui "pano para mangas" como diria o nosso povo.
Observamos hoje, um quadro de relações muito complexas e tensas
entre os grandes países dos cinco continentes. Uma reflexão breve
deixará inevitavelmente de lado muitas dimensões dessas importantes
relações que, num outro espaço, seria interessante analisar. Numa
palavra, o que podemos dizer é que o mundo está perigoso, os
egoísmos nacionalistas parecem impor-se cada vez mais e escasseiam
os dirigentes políticos com uma visão universalista, solidária e
humanista da sociedade. O nosso país tem-se mantido, felizmente, no
grupo dos países que, na União Europeia, se batem por aqueles
valores universais. Mas entendo que todos devemos estar atentos. A
emergência dos populismos vinga sobretudo no campo da ingenuidade e
da ignorância. O combate deve fazer-se, em meu entender, pela
informação, pela pedagogia e pelo voto, nunca alienando a nossa
capacidade de intervenção social.
Pede-me
também uma reflexão sobre a
arep.
Digo-lhe que uma associação como a arep faz todo o sentido, e por
duas razões essenciais: a primeira tem a ver com a continuidade que
ela representa de um certo sentimento de pertença a uma comunidade
onde partilhámos muitos anos da nossa vida; a segunda corresponde à
intervenção social que se lhe reconhece junto de colegas mais
fragilizados.